Escrever requer coragem, requer organização, persistência e criatividade. Não é uma atividade fácil, mas é profundamente benéfica. É por isso que resolvi embarcar nessa viagem. E você vem comigo, não é, meu leitor?
Sobe na garupa e vem de carona comigo em mais uma viagem em versos sobre o mundo. Espero que esse texto te faça bem!
Vou começar com uma pergunta; acredito que seja até uma pergunta boba, talvez já saibamos a resposta ou nunca a saberemos: é possível ao homem chegar ao conhecimento da verdade?
Penso que todos nós vivemos como em uma sombra que nos deixa praticamente cegos. Não é possível para ninguém chegar a um nível de conhecimento no qual este indivíduo possa estufar o peito e dizer: “Eu cheguei à verdade!”. Não acredito que seja possível; isso me parece arrogância, e é até um pouco engraçado. Prefiro suspender o juízo e rir de minha própria limitação. Sou um ser humano, apenas mais um tentando caminhar nessa busca pelo conhecimento, travando a luta para me tornar um homem melhor e buscando levar a vida com bom humor, sorrindo todos os dias e tentando entender que sou apenas uma pequena chama de uma vela em meio à escuridão da noite. E aí está um bom nome para a condição humana: uma longa e escura noite. Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos e, no meio desse caminho, buscamos luz para iluminar as trevas da nossa falta de conhecimento.
Penso que a vida é uma longa viagem, na qual atravessamos essa noite, essa escuridão. A noite, para mim, representa a nossa incerteza, nossa falta de conhecimento da verdade e as limitações do ser humano. Por mais que avancemos, não podemos chegar à essência das coisas; não atingiremos esse nível. O que nos resta é seguir caminhando, tentando e buscando. E algo muito importante é o bom humor: olhar para a nossa limitação com alegria, e não como se fosse um fardo. Acredito que assim possamos viver melhor essa travessia.
Em meus estudos, admiro muitos filósofos. Esses são como verdadeiros faróis que nos ajudam a prosseguir a caminhada em meio à longa noite. Para mim, o maior deles, Aristóteles, iluminou muito a minha jornada ao indicar que precisamos achar um caminho que seja o do meio, como ele diz, o justo-meio. Isso foi falado na obra Ética a Nicômaco. Essa ideia me ajudou desde a primeira vez que li, ainda no primeiro período da faculdade de Filosofia, e, desde então, carrego-a comigo para a vida.
É curioso o que vou contar. Penso e logo começo a gargalhar: ler Aristóteles me lembrou das minhas viagens e tombos de motocicleta. Rodar de motocicleta é a materialização do justo-meio aristotélico. Quando estou em uma motocicleta, preciso achar o equilíbrio; não posso pender para os lados. Se isso acontecer, vou parar no chão. É isso: a busca pelo conhecimento, pela verdade, é como uma viagem em uma longa e escura noite. Não sabemos bem onde vamos chegar, mas não podemos desistir jamais da jornada. E, no caminho, grandes faróis nos ajudam. Vou mencionar aqui apenas alguns que me inspiram: Aristóteles, Platão, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Emmanuel Lévinas, Hannah Arendt, René Descartes, Olavo de Carvalho e tantos outros.
Parece-me que o que estou escrevendo é um devaneio, algo digno de risadas. Eu mesmo rio enquanto escrevo, mas que os meus leitores me permitam prosseguir com este devaneio. Vou contar um pouco de minhas aventuras.
Para começar, vamos rir um pouco da minha primeira queda em uma motocicleta. Eu ajudava um primo meu no trabalho dele, talvez fosse em um domingo, não me lembro ao certo. Ele era motoboy de um supermercado e me pediu para ajudá-lo com algumas entregas. Eu aceitei.
“Pega a minha moto”, disse ele.
Assim eu fiz, arrumei as sacolas com as entregas e parti. O endereço ficava do outro lado da cidade. Eu não tinha habilidade para pilotar, tinha aprendido há pouquíssimo tempo, mas, mesmo assim, encarei. E você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com filosofia? Calma, eu explico: as motocicletas são como a filosofia. Quando alguém tenta filosofar, sempre haverá outro alguém que tenta se opor. É como pilotar a moto: muita coisa joga contra você: a gravidade, o vento contra, às vezes obstáculos na pista, e, se você não enfrentar, ficará para sempre estacionado. Por exemplo, na Grécia, Sócrates enfrentou fortes opositores, mas ele se opôs com argumentos poderosos, como podemos observar na obra de Platão Apologia de Sócrates.
Mas voltemos à queda. Estava pilotando razoavelmente bem, até entrar em uma grande avenida. Quando virei e comecei a acelerar, um cachorro atravessou de repente e, para não bater, apertei o freio de forma brusca. A motocicleta derrapou e eu não consegui evitar a queda. O cachorro atravessou toda a avenida e foi embora tranquilamente. Eu era um jovem imaturo e ainda não tinha desenvolvido habilidade com a pilotagem de motos. É como um filósofo iniciante: se tivesse experiência e tivesse desenvolvido uma filosofia, seria capaz de enfrentar a oposição e seguir em frente, mas o filósofo muito jovem ainda não teve tempo de se desenvolver e não é capaz de enfrentar pensamentos opostos.
Agora entendeu o que as motos têm a ver com a filosofia? Se você é leitor de Platão, vai concordar comigo. Repare o que escreve Platão sobre uma afirmação de Sócrates em Apologia de Sócrates: “Em realidade, cidadãos atenienses, para demonstrar que não sou réu, segundo a acusação de Meleto, não me parece ser necessária longa defesa, mas isso basta. Aquilo, pois, que eu dizia no princípio, que há muito ódio contra mim, e muito acumulado, bem sabeis que é verdade.” (PLATÃO, p.77)
Veja que o filósofo Sócrates enfrentava oposição, chegando até a ser odiado, mas ele precisava enfrentar isso e seguiu em frente, sem recuar, pois era experiente. Para mim, isso tem muito a ver com andar de moto, que também se relaciona com a filosofia. Em ambas as atividades, é fundamental se desenvolver e se fortalecer. Se, ao andar de moto, desenvolvemos a habilidade praticando, na filosofia isso ocorre ao ler os grandes filósofos e escrever. Aliás, escrever é algo que carrego comigo desde sempre, parecendo estar intrinsecamente ligado à minha vida, mas ainda não consegui publicar algo relevante. Um dia isso acontecerá.
Quanto mais o filósofo se desenvolve, mais capaz ele se torna de produzir conceitos. São muitos os desafios que uma pessoa enfrenta para se tornar filósofo, mas entendo que um ponto principal é desenvolver a razão, a capacidade de análise, e realizar grande esforço para estabelecer suas bases filosóficas. René Descartes também ilumina a minha noite escura quando fala sobre esses temas em Princípios da Filosofia.
No entanto, ainda não atravessamos a longa e escura noite; estamos no meio dela. Algumas coisas nesta vida trazem luz, mesmo que não sejam filosofia. Uma dessas coisas é a arte. Vejo arte em tudo: em um quadro, em alguém discursando, em um texto, numa luta de artes marciais, ou até mesmo em uma motocicleta. E não importa se é uma Fat Boy da Harley-Davidson ou uma simples Honda CG 125 caindo aos pedaços, como a minha, tudo tem um pouco de arte, tudo me ajuda, de alguma forma, a iluminar o caminho. Tudo é belo. No artigo Kant e a estética: arte como formação, os autores Daniel Richardson de Carvalho Sena e Victor Leandro da Silva utilizam o pensamento de Kant para falar sobre arte. Perceba que é disso que estou falando quando digo que vejo arte em tudo.
“Kant separa bem os pontos que diferenciam o belo do agradável. Este, segundo ele, está atrelado a posições meramente pessoais causadas por sensações. Desse modo, conforme sua perspectiva, não cabem sobre a agradabilidade quaisquer questionamentos acerca de sua veracidade para além do indivíduo.” (SENA; SILVA, p.197)
As coisas que falei nem sempre são agradáveis; às vezes, são até dolorosas ou engraçadas, como minha experiência de moto, mas com certeza é belo pilotar e sentir o vento no rosto. É belo observar a paisagem, a arquitetura dos prédios da cidade e muitas outras coisas. A arte pode não ser agradável, mas é bela, como andar de motocicleta.
Acho que já podemos encerrar nossa viagem, pelo menos neste texto. Tenho outras histórias de motociclista para contar, mas vamos conversando na travessia da vida, e um dia contarei outros capítulos das minhas andanças por aí. E você vai estar na garupa, não é, meu leitor?
Já observei muita coisa nessas ruas, avenidas, estradas e rodovias. Aliás, pilotar aguça os nossos sentidos, principalmente a visão. Ali, enquanto estou flutuando em minha motocicleta, posso ver e imaginar coisas a partir do que vejo. Posso tentar criar a minha verdade, a minha linguagem. Talvez não a verdade como as coisas realmente são, como já conversamos, não podemos chegar à essência dessas coisas. Tudo o que vejo, mesmo que de relance, quando estou na estrada, por exemplo, entra pelos meus sentidos, e eu o nomeio por causa da linguagem. É um nome, mas não é a coisa em si. Não chegaremos à essência das coisas. Então, talvez não cheguemos à verdade, mas precisamos de luz na longa noite. Precisamos continuar caminhando.
Para finalizar, cito aqui o filme Caminho da Liberdade, do diretor Peter Weir. Nesse filme, o personagem principal é um soldado que foi preso na Sibéria de forma totalmente injusta. Aquela era uma prisão sombria, escura, e ele foge de lá com os amigos em uma noite profundamente escura e chuvosa. Uma vez fora da prisão, eles precisavam caminhar até a Polônia. Foi uma jornada desumana, cruel e, por incrível que pareça, em alguns diálogos deles, também engraçada. Nem todos conseguiram chegar. Alguns morreram, outros desistiram, mas o personagem central não parou. Ele seguiu caminhando até chegar ao destino e reencontrar sua esposa, mesmo depois de muitos anos. Bonita essa história, não é, meu leitor? É sempre uma bênção reencontrar quem a gente ama!
Acho que é isso. Vamos seguir caminhando, estudando, escrevendo, cantando, compondo, fazendo arte, conversando e sorrindo, até que, um dia, consigamos sair da longa e escura noite.
Se você chegou até aqui, eu te desejo luz nessa longa noite. E com certeza caminharemos juntos, refletindo em versos sobre o mundo! Ah, não esqueça da nossa pausa para o café, é sempre bom tomar um café entre amigos.
Até a próxima segunda-feira, gente boa!