Um legado de pioneirismo, sensibilidade artística e transformação social que marcou gerações no Norte de Minas vai ganhar as telas do cinema. A história de Marina Helena Lorenzo Fernández Silva — conhecida carinhosamente como Marina ou dona Marina — fundadora do Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernández, está sendo contada em um filme inédito que promete resgatar e valorizar sua importância para a cultura regional.
Com produção da Fulô Comunicação e Cultura, em parceria com o produtor e cineasta Cavi Borges, do Rio de Janeiro, a obra tem direção de Fabíola Versiani e direção de fotografia de Neto Macedo. As gravações já se encontram em estágio avançado, com locações em Montes Claros e no Rio de Janeiro, cidade natal de Marina Lorenzo. A previsão é que o filme chegue aos cinemas em 2026, ano em que Marina completaria 100 anos de vida.

Segundo a diretora Fabíola Versiani, o projeto nasceu ainda quando dona Marina estava viva, o que torna o filme ainda mais simbólico. “Gostaria muito de trocar com ela sobre o processo e também que ela estivesse presente para ver sua história sendo contada. Mas acredito que pessoas como ela não morrem jamais e que seguem nos inspirando e guiando”, afirma.
A produção se apoia em um vasto acervo histórico, com fotos, vídeos e depoimentos de pessoas que conviveram e foram impactadas diretamente pela atuação de Marina. O filme irá retratá-la em diversas dimensões — como filha, mulher, mãe e artista — destacando seu pensamento coletivo, o protagonismo feminino e o efeito multiplicador de sua atuação na formação cultural e artística da região.
Nascida no Rio de Janeiro em 1926, Marina cresceu sob forte influência cultural do pai, Oscar Lorenzo Fernández, destacado compositor brasileiro do modernismo e participante da icônica Semana de Arte Moderna de 1922. Após se casar com o mineiro Joaquim Alves da Silva, mudou-se para Montes Claros, onde rapidamente se tornou uma das figuras centrais da revolução cultural do Norte de Minas.
Em um período marcado por grandes limitações impostas às mulheres, especialmente nas décadas de 1940 e 1950, Marina ignorou críticas e barreiras sociais para investir na valorização da arte, da música e da educação cultural. Sua atuação foi fundamental para a formação de artistas e para a consolidação de importantes intercâmbios culturais na região.

A família de dona Marina tem acompanhado de perto o processo criativo do filme. A filha Antonieta Silvério destaca a relevância histórica da obra. “É uma questão de justiça e de memória. Ela transformou vidas, deixou um legado e tinha uma visão muito à frente do seu tempo. Ver essa história sendo contada é fundamental para as próximas gerações”, afirma.
Antonieta também relembra o papel social da mãe, especialmente na formação profissional de mulheres. “Ela ajudou muitas pessoas a terem uma profissão, principalmente mulheres que passaram a ser professoras no conservatório. Muita gente se formou lá e construiu uma carreira graças a ela”, destaca.
O filme Marina é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo, por meio do Edital 010/2024, da Prefeitura Municipal de Montes Claros, e promete ser não apenas um registro histórico, mas uma homenagem a uma mulher que ajudou a moldar a identidade cultural do Norte de Minas.