Investigação sobre publicidade de apostas na CazéTV amplia debate sobre limites da propaganda em transmissões esportivas

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A abertura de uma investigação pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) sobre a divulgação de apostas esportivas durante as transmissões da Copa do Mundo de 2026 pela CazéTV colocou em discussão a forma como plataformas digitais promovem esse tipo de publicidade. Além da apuração conduzida pelo órgão vinculado ao Ministério da Justiça, especialistas avaliam que o caso evidencia os desafios da regulamentação da propaganda de bets em conteúdos de entretenimento.

A investigação foi instaurada para verificar se as ações publicitárias exibidas durante os jogos podem configurar publicidade enganosa ou abusiva. Segundo a Senacon, serão analisadas estratégias promocionais utilizadas nas transmissões, como a oferta de vantagens para apostadores, a divulgação de odds com comentários que reforçavam sua atratividade e a associação entre apostas esportivas e a paixão pelo futebol.

Outro ponto que será avaliado é a participação de narradores e comentaristas na apresentação das campanhas. Para o órgão, a presença desses profissionais nas ações promocionais pode dificultar a identificação do conteúdo como publicidade e estimular apostas sem que haja informações suficientes sobre os riscos envolvidos.

Como parte da investigação, a CazéTV terá de explicar, em até cinco dias, como são produzidas as campanhas veiculadas durante a Copa do Mundo, quem é responsável por sua criação e quais procedimentos internos são adotados para verificar a conformidade das peças publicitárias com a legislação e com as normas de proteção ao consumidor.

Em nota, a plataforma informou que passará a adotar um modelo mais conservador para anúncios de empresas de apostas. Segundo a CazéTV, as ativações desse segmento seguirão um formato tradicional de publicidade, diferentemente do estilo mais espontâneo utilizado em outros tipos de ações comerciais.

O caso ganhou novos desdobramentos após o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) recomendar a suspensão de três peças publicitárias exibidas durante transmissões da Copa. As campanhas envolviam as casas de apostas Bet365, Betnacional e KTO e eram apresentadas por narradores e comentaristas durante os jogos. A medida é preventiva e permanecerá válida até a conclusão da análise do Conselho de Ética do órgão.

Durante a Copa, a CazéTV se consolidou como uma das principais plataformas de transmissão do torneio e é responsável pela exibição de todas as 104 partidas da competição. O formato adotado pelo canal, que mistura informação, entretenimento e interação com o público, tornou-se um dos pontos centrais do debate.

Para o professor Anderson Santos, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, esse modelo funciona para diversas marcas, mas exige maior cautela quando envolve apostas esportivas. Segundo ele, transformar esse tipo de conteúdo em algo natural durante a transmissão pode representar riscos, considerando os impactos financeiros e sociais associados ao jogo.

Na mesma linha, a professora Janaine Aires, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que as plataformas digitais ainda ocupam uma área de regulamentação menos definida do que os veículos tradicionais. Ela destaca que, enquanto a televisão costuma separar claramente publicidade e conteúdo editorial, no ambiente digital essas fronteiras podem se tornar menos evidentes para o público.

O crescimento do mercado de apostas reforça a relevância da discussão. Dados do Ministério da Fazenda apontam que o setor movimentou R$ 37 bilhões em lucro bruto em 2025. Um estudo da Agência Macfor também identificou mais de 18 milhões de buscas pelo termo “bet” no período que antecedeu a Copa do Mundo e indicou que seis em cada dez brasileiros pretendiam realizar apostas durante o torneio.

No Congresso Nacional, a regulamentação da publicidade de apostas também está em debate. Atualmente, projetos em tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado propõem restringir ou proibir a publicidade e o patrocínio de empresas do setor em meios de comunicação e eventos esportivos, ampliando a discussão sobre os limites da atuação dessas empresas no país.

Anna Narciso

Anna Narciso é jornalista formada pelas Faculdades Integradas do Norte de Minas (FUNORTE), desde 2021. Possui experiência em jornalismo, marketing e varejo, com atuação voltada à produção de conteúdo, comunicação estratégica e relacionamento com o público. Sua trajetória é marcada pela versatilidade, olhar atento às narrativas contemporâneas e compromisso com uma comunicação clara, ética e alinhada às demandas do mercado

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