Cosems-MG orienta gestores sobre uso de ácido tranexâmico no atendimento a vítimas de trauma grave

Ministério da Saúde publicou nota técnica com critérios para administração precoce do medicamento, considerado estratégico no combate à hemorragia e à redução de mortes evitáveis

Foto: Cosems / Divulgação

O Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais (Cosems-MG) orienta gestores municipais e serviços da rede de urgência e emergência sobre a adoção das recomendações do Ministério da Saúde para o uso precoce do ácido tranexâmico (ATX) no atendimento a pacientes vítimas de trauma grave com risco de choque hemorrágico.

A orientação ocorre após a Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde (SAES/MS) publicar a Nota Técnica Conjunta nº 276/2026-CGSH/DAET/SAES/MS, que estabelece parâmetros clínicos e orientações oficiais para a utilização do medicamento.

Segundo o documento, as recomendações têm impacto direto na organização dos serviços municipais e macrorregionais de urgência e emergência, especialmente no Atendimento Pré-Hospitalar (APH), no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), nas salas vermelhas das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e nos hospitais de retaguarda.

Hemorragia exige resposta rápida

O trauma está entre as principais causas de mortalidade prematura no Brasil e no mundo, atingindo principalmente a população jovem. Nos casos de traumatismos graves, a hemorragia aguda é apontada como uma das principais causas de morte evitável, respondendo por cerca de 30% a 40% dos óbitos.

A nota técnica destaca ainda que uma parcela significativa dessas mortes ocorre nas primeiras horas após o trauma, muitas vezes ainda durante o atendimento pré-hospitalar ou no transporte até uma unidade de saúde.

O ácido tranexâmico atua reduzindo a degradação dos coágulos sanguíneos, processo conhecido como hiperfibrinólise precoce. Com isso, o medicamento pode contribuir para diminuir a perda de sangue e a necessidade de transfusões maciças de hemocomponentes.

A efetividade do tratamento está diretamente relacionada ao tempo. Conforme os parâmetros apresentados pelo Ministério da Saúde, o benefício é maior quando o medicamento é administrado na primeira hora após o trauma. O documento também aponta aumento aproximado de 10% no risco de mortalidade a cada 15 minutos de atraso para o início da infusão.

Outro ponto destacado é a janela terapêutica: o ácido tranexâmico não deve ser administrado após três horas do trauma, período a partir do qual perde o efeito protetor e pode estar associado a pior prognóstico.

Quem pode receber o medicamento

A nota técnica estabelece critérios para orientar a decisão das equipes de saúde.

Para adultos com 16 anos ou mais, são elegíveis vítimas de trauma com suspeita ou confirmação de sangramento significativo. Entre os pacientes pediátricos, com menos de 16 anos, estão incluídas vítimas de trauma grave com suspeita de hemorragia com ameaça à vida.

A indicação clínica considera o tempo transcorrido desde o trauma, associado a sinais como pressão arterial sistólica inferior a 90 mmHg, frequência cardíaca acima de 110 batimentos por minuto ou suspeita clínica fundamentada de hemorragia grave.

Entre as situações que podem levantar essa suspeita estão choque hemorrágico, sangramento ativo maciço, traumas torácicos, abdominais ou pélvicos de alta energia, amputações traumáticas e ferimentos provocados por projéteis de arma de fogo ou por arma branca.

O Ministério da Saúde ressalta que a ausência de confirmação laboratorial prévia de alterações na coagulação não deve atrasar a administração do medicamento quando houver suspeita clínica identificada na avaliação inicial.

Posologia prevista na orientação

Para pacientes adultos, o regime padrão indicado prevê 1 grama de ácido tranexâmico por via intravenosa, sob prescrição médica, administrado lentamente durante aproximadamente 10 minutos. Em seguida, deve ser realizada uma segunda dose de 1 grama em infusão contínua por oito horas.

Também podem ser adotados regimes alternativos, como dose única de 2 gramas por via intravenosa, conforme os protocolos institucionais e operacionais de cada serviço.

Para pacientes pediátricos, a orientação prevê dose de 15 mg/kg em bolus intravenoso lento, administrado ao longo de aproximadamente 10 minutos, seguida de infusão contínua de 2 mg/kg/h durante oito horas. Como alternativa, pode ser utilizada dose de 25 mg/kg em bolus intravenoso, limitada ao máximo de 2 gramas.

Cosems-MG reforça papel dos gestores

Diante das novas orientações, o Cosems-MG reforça a importância de que gestores municipais, consórcios intermunicipais responsáveis pelo SAMU e direções hospitalares adotem medidas para garantir a aplicação adequada dos protocolos na rede de urgência.

Entre as recomendações está a garantia da disponibilidade do ácido tranexâmico nas maletas de urgência das ambulâncias de suporte avançado, nas unidades de suporte básico que adotem o protocolo e nas unidades de pronto atendimento.

O Conselho também orienta a realização de capacitação permanente das equipes de saúde, especialmente para reforçar os critérios de indicação e a importância da administração dentro da janela terapêutica.

Outra medida destacada é o registro formal das informações relacionadas ao medicamento. As equipes devem registrar em prontuário o horário estimado do trauma, o horário exato do início da infusão e a dose administrada. A medida busca assegurar a rastreabilidade do atendimento e a continuidade da linha de cuidado durante eventuais transferências do paciente.

Para o Cosems-MG, o ácido tranexâmico apresenta perfil favorável de segurança, baixo custo e potencial de resolutividade assistencial, reforçando a necessidade de organização da rede para que o medicamento esteja disponível e seja administrado de forma oportuna nos casos indicados.

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Américo Borges

Américo Borges é jornalista formado pelas Faculdades Integradas do Norte de Minas (FUNORTE). Com ampla experiência em comunicação, já atuou em portais de notícias, rádio e também como assessor de imprensa em órgãos públicos. Sua trajetória é marcada pelo compromisso com a informação de qualidade e a valorização do jornalismo regional.