Mesmo com a recente melhora nos índices gerais de emprego e renda no Brasil, as mulheres negras jovens continuam registrando os piores indicadores de desocupação, informalidade e rendimento no mercado de trabalho.
De acordo com um relatório inédito da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), a taxa de desemprego entre as jovens de 14 a 17 anos atinge 24,7% — um índice 1,4 vez superior ao de homens brancos na mesma faixa etária.
Os dados, extraídos da PNAD Contínua do IBGE, mostram que a disparidade se intensifica nos momentos de transição entre a escola e o trabalho. Na faixa etária de 18 a 24 anos, a desocupação entre as mulheres negras é de 16,5% (1,6 vez maior que a de homens brancos). Já entre 25 e 29 anos, o índice fica em 10,3%, o que representa quase o dobro do registrado entre mulheres brancas e 2,8 vezes o de homens brancos.
O abismo também se reflete na remuneração. O rendimento médio das mulheres negras equivale a apenas 46,5% do recebido pelos homens brancos, uma estagnação histórica. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, a diferença salarial entre os dois grupos na faixa de 25 a 29 anos ultrapassa os 100%: enquanto eles ganham, em média, R$ 5.323, elas recebem R$ 2.569.
A vulnerabilidade do segmento se estende à informalidade, que atinge 39,1% das jovens negras (cerca de 10% acima das jovens brancas). Essa barreira estrutural leva muitas ao desalento — a desistência de procurar emprego. As mulheres negras representam 38,7% dos jovens desalentados do país, saltando para 44,2% quando analisada especificamente a faixa de 25 a 29 anos.
Segundo Shirley Santos, coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, os resultados evidenciam que o problema não é a falta de acesso à educação, mas sim mecanismos de exclusão como o racismo estrutural, a discriminação em contratações, a sobrecarga com o trabalho de cuidado e as barreiras de mobilidade urbana enfrentadas por moradoras da periferia.
O estudo conclui que, embora as cotas raciais e sociais sejam fundamentais, elas não são suficientes no ritmo que a população necessita. O relatório defende a urgência de políticas públicas estruturantes, como a ampliação de creches, programas de permanência estudantil, metas de diversidade no setor privado e investimentos voltados para as periferias urbanas.
(Com informações da Agência Brasil)