Vivemos uma época em que nunca tivemos tanto acesso à informação. Com poucos toques na tela do celular, podemos conversar com pessoas do outro lado do mundo, aprender um novo idioma ou acompanhar acontecimentos em tempo real. No entanto, essa mesma tecnologia que facilita nossa vida também traz um desafio silencioso: preservar a capacidade de atenção.
Você já percebeu quantas vezes pega o celular sem um motivo claro? Muitas vezes, é apenas para conferir uma mensagem e, poucos minutos depois, estamos assistindo a vídeos, navegando pelas redes sociais ou lendo notícias sem perceber o tempo passar.
Essa funcionalidade das redes sociais, em que novos conteúdos carregam e aparecem automaticamente conforme você rola a página para baixo, é o que chamamos de “scroll infinito”.
O nosso cérebro é curioso e naturalmente atraído por novidades. Cada nova informação ativa circuitos relacionados à recompensa e à liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à motivação e ao prazer. As plataformas digitais exploraram esse mecanismo, oferecendo um fluxo praticamente infinito de estímulos.
Com o passar do tempo, esse padrão pode dificultar a realização de atividades que exigem concentração prolongada, como estudar, ler um livro ou simplesmente ouvir alguém com atenção. O cérebro vai sendo “adestrado” para mudar rapidamente de foco, sempre em busca da próxima novidade.
Um aspecto pouco valorizado hoje em dia é a importância do silêncio e do ócio. Quando caminhamos, especialmente em meio à natureza, ou apenas contemplamos uma paisagem sem recorrer imediatamente ao celular, ativamos redes cerebrais responsáveis pela organização das memórias, pela criatividade e pelo planejamento. São momentos em que o cérebro trabalha de forma discreta, mas extremamente produtiva.
Eu mesmo pratico essa atividade há muito tempo. Em 2023, subi o Monte Roraima, na Venezuela, e fiquei nove dias sem acesso ao celular. Também participo de retiros espirituais nos quais ficamos de três a quatro dias sem qualquer contato com objetos eletrônicos. Isso é libertador e proporciona momentos de foco total em nós mesmos.
Essa preocupação tem sido discutida por diversos especialistas. No livro Atenção Roubada, o jornalista e escritor Johann Hari defende que estamos vivendo uma verdadeira crise global da concentração, em um ambiente em que empresas disputam cada segundo da nossa atenção. Segundo ele, preservar a capacidade de foco tornou-se uma questão de saúde e de liberdade.
Na mesma linha, o psicólogo social Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa, alerta para os impactos do uso excessivo de smartphones e redes sociais, especialmente entre crianças e adolescentes. Ele argumenta que estamos expondo cérebros ainda em desenvolvimento a um ambiente digital intenso, com possíveis consequências para o aprendizado, a saúde emocional e as relações sociais.
Não é à toa que vários países estão implementando leis que restringem ou proíbem o acesso de crianças às redes sociais. No Brasil, a Lei nº 15.100/2025 determina a proibição do uso de celulares durante aulas, recreios e intervalos em todas as etapas da educação básica — infantil, fundamental e ensino médio — em escolas públicas e privadas de todo o país.
O pesquisador Cal Newport, em Trabalho Focado (Deep Work), acrescenta uma reflexão importante: a capacidade de manter atenção profunda está se tornando uma das habilidades mais valiosas do século XXI. Em um mundo cheio de distrações, quem consegue se concentrar por mais tempo tende a aprender melhor, produzir mais e tomar decisões com maior qualidade.
Isso significa que devemos abandonar a tecnologia? Acho que não. O problema não está no celular, mas na forma como o utilizamos. A tecnologia deve ser uma ferramenta a serviço da inteligência humana, e não um mecanismo que controla nossos hábitos e sequestra nossas mentes.
Criar momentos livres de telas, ler um livro, praticar atividade física, conversar pessoalmente e reservar alguns minutos do dia para simplesmente pensar são atitudes simples que ajudam a preservar a saúde cerebral.
Afinal, em um mundo em que tudo disputa nossos olhos e nossa mente, a verdadeira liberdade talvez esteja na capacidade de escolher onde colocar nossa atenção.
Referências:
HAIDT, Jonathan. A Geração Ansiosa (The Anxious Generation). New York: Penguin Press, 2024.
HARI, Johann. Atenção Roubada (Stolen Focus). Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
NEWPORT, Cal. Trabalho Focado: Como Ter Sucesso em um Mundo Distraído (Deep Work). Rio de Janeiro: Alta Books, 2016.