“Não é visibilidade, é apagamento”: evento da Prefeitura gera revolta entre pessoas trans

Um evento promovido nesta semana pela Prefeitura de Montes Claros, por meio do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos (NUCIDE), gerou forte repercussão e críticas de movimentos sociais e representantes da população trans. A atividade, realizada na Casa da Cidadania e apresentada como uma iniciativa de promoção da diversidade, foi questionada pela forma como foi conduzida e pela ausência de protagonismo das pessoas diretamente afetadas pelo tema.

A socióloga Letícia Imperatriz, mulher trans, criticou duramente a composição da mesa e a condução do debate. Segundo ela, o espaço que deveria priorizar a escuta acabou reproduzindo estruturas de exclusão. “A composição da mesa deixa claro o problema estrutural: sete homens cisgênero heteronormativos, duas mulheres cis e, de forma quase simbólica, uma única mulher trans colocada à margem. O patriarcado e o machismo seguem operando como entraves a qualquer avanço real”, afirmou.

Para Letícia, o evento levanta um questionamento central: “Que tipo de visibilidade está sendo produzida? Pessoas trans e travestis idealizaram esse encontro ou ele foi construído a partir de conveniências políticas e articulações institucionais?”.

A socióloga também destacou que a realidade vivida por pessoas trans no município segue marcada por grave vulnerabilidade social, cenário que, segundo ela, não é enfrentado com ações pontuais ou discursos institucionais. “Retirar pessoas trans de suas casas para ouvir falas não combate a fome, não garante permanência escolar, não interrompe a violência cotidiana e não impede que continuemos morrendo”, declarou.

Letícia Imperatriz defende que a falha está na inversão do lugar de fala e de escuta. “Sensibilidade é abrir espaço para quem vive a realidade. Compromisso é construir políticas com, e não sobre. Ouvir pessoas trans apenas para legitimar um discurso institucional não é visibilidade, é apagamento”, concluiu.

O evento reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas voltadas à diversidade em Montes Claros e reforça a cobrança por ações concretas, participação direta e protagonismo das pessoas trans na construção de políticas que dizem respeito às suas próprias vidas.

Diovane Barbosa

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