Meus dois centavos sobre a Rádio Universitária Unimontes

Unimontes/ Divulgação

Vou contar algumas experiências curiosas que vi acontecer de perto nesses meus 25 anos dedicados ao rádio norte-mineiro. Coisas que ninguém precisou me contar, mesmo sendo eu alguém que vivencia o rádio desde o berço, como filho do também radialista Edson Andrade. Não. O que vou relatar aqui eu mesmo testemunhei: pequenas anedotas, causos e reações que esse mini aparelho chamado rádio provoca dentro e fora dos estúdios.

Quando o Comando das Sete estava para estrear na Transamérica, houve forte resistência de parte dos ouvintes da emissora voltada ao público jovem. “Como um programa popular assim vai entrar na minha rádio, feita para a minha galera?”, diziam. Hoje, é um dos programas mais prestigiados e mais ouvidos da cidade, sendo transmitido pela Rádio Pop e pela Educadora, onde nasceu.

Quando implementei humor no Bola na Rede, que surgiu como qualquer programa tradicional de mesa-redonda esportiva do país, até ameaça de morte recebi. Para alguns, era inconcebível “brincar com algo tão sério” quanto o futebol. O programa chega aos 15 anos em 2026 cercado por uma legião de ouvintes queridos que seguem conosco ano após ano.

Histórias assim vêm e vão. De tempos em tempos, surge uma nova reação diante do desconforto que mudanças bruscas costumam causar. É amargo, não palatável. É como tirar da gente algo que parecia nos pertencer. Lembro quando estreei o Porão do Rock na Pop: um ouvinte queria que eu tocasse “apenas as podreiras”. Não me entenda mal: eu sou do Rock ‘N Roll. Mas o papel do rádio é ser plural. Uma emissora não pode existir apenas para parcelas específicas; ela precisa dialogar com o todo, mesmo no universo cada vez mais segmentado das FMs.

O burburinho radiofônico que agora toma conta de alguns grupos em Montes Claros gira em torno da recente mudança da Rádio Universitária Unimontes FM, que atualmente aposta em uma programação voltada ao Hit Parade — com sertanejo, pagode, entretenimento e jornalismo — e que antes seguia aquilo que nós, do rádio, chamamos de formato Adulto: MPB, pouca locução e espaço para artistas regionais. Pelo menos, em teoria, deveria ser assim.

Diante de uma mudança tão drástica, muita gente se esquece de observar detalhes importantes sobre a existência de uma emissora de rádio e sua função social. A Rádio Unimontes, mesmo com programação qualificada, historicamente ocupava a última colocação de audiência entre as rádios da cidade. Havia pouca comunicação direta, pouco espaço para a comunidade acadêmica no cotidiano da emissora e pouca integração entre universidade e ouvinte comum.

A música regional e os artistas da terra apareciam ocasionalmente, quase sempre restritos a programas maravilhosos — e saudosos — como o Nossa Arte, Nossa Gente, programa no qual, como músico, já fui entrevistado e onde rodou durante muitos anos uma vinheta gravada ao vivo pela minha banda.

Hoje, o enfoque é outro. Com programas ao vivo, a emissora passa a investir em entretenimento, prestação de serviço e jornalismo, atendendo àquilo que deve ser o norte de qualquer rádio: exercer plenamente sua potência como veículo de comunicação. Das 5 da manhã à meia-noite, a programação agora conta com entrevistas, participação dos ouvintes, oferecimento de músicas, notícias da cidade e da universidade, programas esportivos e muito mais.

Os artistas regionais, que antes apareciam vez ou outra, agora têm espaço fixo no quadro NOSSO CANTO, dedicado diariamente à música regional em diferentes horários da programação — espaço que nenhuma outra emissora local oferece dessa maneira. Programas como o Frequência Beatles, que estava adormecido, voltam ao ar apresentados justamente por artistas da terra e membros da comunidade acadêmica: pessoas que antes apareciam esporadicamente e que agora passam a ter podcasts, quadros sobre projetos de extensão, programas próprios e tudo aquilo que a emissora pode oferecer como rádio universitária verdadeiramente conectada à Unimontes.

O rádio retoma sua função principal: ser companhia para quem ouve. Mas, para alguns, o problema continua sendo o sertanejo.

O termo “sertanejo” refere-se a tudo aquilo que pertence ao sertão e à vida rural. Ou seja: fala diretamente sobre nós, moradores do sertão norte-mineiro. Ser sertanejo faz parte da nossa identidade. Ainda assim, causa espanto perceber como algumas pessoas tentam determinar o que pode e o que não pode existir dentro da Rádio Unimontes.

Lá não pode sertanejo, mas todos adoramos ouvir Chico Duca tocando sertanejão na Itatiaia. E quem nunca acordou em manhãs inesquecíveis ouvindo Tião Carreiro na Rádio São Francisco de Assis 93.5 FM? (O mesmo Tião Carreiro que, em entrevistas, dizia ser de Montes Claros, apesar de ter nascido na bela Monte Azul).

Na rádio da universidade “não pode”, mas conceder entrevista à Educadora FM — que toca sertanejo 24 horas por dia — já parece aceitável. Eu bem sei como baterista da Magical Mystery Band a dificuldade de ter local pra tocar Rock aqui em MOC e mesmo assim, a percepção de muitos quando vai curtir um sertanejinho num barzinho sempre foi “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Eu não vejo problema nisso. Mesmo assim, é assim que seguimos, com a pontual justificativa de que “ali é a rádio da Unimontes”, quando justamente a universidade deveria ser símbolo máximo de pluralidade e não de restrição.

Veja só: quem ama MPB e rejeita o sertanejo acaba sendo exposto, a contragosto, a artistas como Milton Nascimento interpretando “Luar do Sertão”; Ney Matogrosso cantando “Tristeza do Jeca”; Ana Carolina gravando “Evidências”; ou até os The Beatles flertando com referências country em “I’ve Just Seen a Face”. Sem falar de Roberto Carlos, que ano após ano recebe artistas do sertanejo universitário em seu especial de fim de ano. E aí?

Para quem gostava da antiga programação, existia o conforto de ter ao menos uma emissora dedicada àquele repertório. Era um espaço que ia de Djavan aos imortais Wolfgang Amadeus Mozart e Franz Schubert, incluindo programas voltados à música clássica. Mas o que quase ninguém se perguntou foi: por que apenas a Unimontes FM tocava essas músicas, enquanto todas as outras emissoras seguem outro caminho? E por que o contrário não pode acontecer?

O preconceito musical — que ignora inclusive grandes artistas sertanejos de Montes Claros, como Marcelo & Matteo, Kaio Marques & Nataly, Sérgio & Rodrigo e tantos outros — tenta diminuir aquilo que uma grande emissora como a Universitária Unimontes pode realizar por Montes Claros e toda a região: prestação de serviço, divulgação das atividades da universidade, informação em tempo real, entretenimento ao vivo, locução e jornalismo.

A música é a ponte emocional de tudo isso. É ela que traz alegria, identidade e proximidade para a vida das pessoas. É ela que acompanha o ouvinte enquanto o rádio cumpre sua missão maior.

Com a nova Universitária Unimontes, aquilo que é da terra passa a ser difundido para todos, e não apenas para grupos específicos. Os artistas locais terão ainda mais espaço para lançar músicas novas, com execução diária garantida e presença no programa Corredor Cultural aos sábados. O Flashback e a MPB continuam presentes e ganham destaque no programa Amo-te Muito — que carrega Montes Claros até no nome — diariamente às 22h. E, junto disso, vêm também o sertanejo, o pagode e outros estilos. E isso é apenas o começo.

Para deixar claro: ninguém é obrigado a gostar de sertanejo. Cada pessoa tem o direito de amar ou rejeitar qualquer estilo musical e tá tudo certo. Mas talvez valha uma reflexão para todos nós — comunicadores, músicos e ouvintes — que naturalmente sentimos estranhamento diante de mudanças tão grandes após tantos anos: Talvez, com o tempo, a gente perceba que ampliar espaços é melhor do que restringi-los. O que a Universitária Unimontes agora pode realizar é enorme: mais informação, mais entretenimento, mais oportunidades e mais participação para todos.

Parafraseando meu amigo Benedito Said: “é preciso esquecer os cílios para enxergar os olhos.”

 

Dhiogo Revert

Dhiogo Revert é jornalista e radialista há 25 anos. Fez parte do Comando das Sete e comanda programas como Pop Geek e Bola na Rede na Rádio Pop 95,1 FM.

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