Em minhas reflexões, notei que as palavras têm uma grande força. Certa vez, em uma aula de Filosofia, o professor disse uma frase que carrego comigo até hoje:
“A palavra tem um peso.”
Ele se referia ao que é proferido, dito, argumentado. Isso tem peso em quem nos ouve. Carreguei essa frase no coração: o que eu digo tem um impacto em você, seja positivo ou negativo.
Não apenas por ter ouvido o professor, mas por tantas experiências de vida, compreendi a força das palavras — e hoje me preocupo com isso. Minhas palavras precisam ser algo bom para quem me empresta os ouvidos.
É por isso que acredito na conversão das nossas palavras. Eu e você também precisamos levar algo bom, algo que construa, que promova paz e esperança por meio do que dizemos. Noto que o que eu falo influencia o ambiente onde vivo. Percebo que o cotidiano é uma fonte de reflexão. Vejo que muitas pessoas precisam dessa mensagem. E foi por isso que nasceu a coluna “Versos Sobre o Mundo”.
Sei que o que proponho não é fácil, mas aqui estou — na difícil missão de levar até os seus ouvidos, ou melhor, ao seu coração, uma palavra, uma mensagem que possa ser como um farol, uma luz, um lampejo de esperança.
E você vem comigo nessa jornada, não é mesmo, leitor?
Antes de mais nada, agradeço de coração ao jornalista Maicon Tavares e a toda a equipe do Portal Gerais News por me concederem este espaço. Eu sonhava com essa coluna — e agora o sonho é real.
Para quem ainda não me conhece: me chamo Américo Borges, sou jornalista por formação e profissão, e atualmente estou finalizando a graduação em Filosofia, o que de certa forma dá base e profundidade às minhas reflexões.
Vamos então ao nosso primeiro tema.
Começo com uma pergunta: você tem observado ao seu redor?
Para chegar à reflexão que proponho hoje, volto a onde tudo começou.
Quando menino, eu jamais imaginei que me tornaria jornalista. Pra ser sincero, nem era bom com palavras — era tímido, reservado. Mas a vida me conduziu até essa profissão.
Certa vez, eu estava passeando na casa de uns parentes, aqui mesmo no Norte de Minas. Naquela cidade existia uma rádio chamada Cultura FM. Nome sugestivo, não? Que pena saber que hoje ela não existe mais. Mas os fins também fazem parte da vida — e está tudo bem. A gente segue em frente.
Uma tia minha trabalhava para o proprietário da rádio. Fui ao escritório onde ela estava, acompanhado do filho dela — meu primo. Aliás, há quanto tempo não os vejo… Como será que estão?
Durante a conversa, ela comentou:
“Aqui no fundo tem uma rádio.”
Fiquei curioso. Sempre tive uma ideia meio mágica do que era o mundo do rádio. Comentei que gostava muito — e era verdade. Eu passava noites inteiras escutando uma rádio de Montes Claros. Naquela época, eu era jovem e tinha tempo pra perder o sono. Bons tempos, diga-se de passagem.
Minha tia — meio maluca (risos) — me puxou pelo braço e me levou até o estúdio. Foi a primeira vez que pisei em um. O locutor estava lá. Um homem de estatura mediana, barba e ótimo senso de humor.
“Meu sobrinho acha um barato trabalhar em rádio”, disse minha tia.
“Realmente tudo é barato, inclusive o salário”, respondeu ele. (risos)
A conversa foi boa. Ficamos amigos. Ele me convidou para fazer um teste de locução. Fiz — e fui bem. Resultado: trabalhei por cinco meses na rádio. E foi essa experiência que me levou, algum tempo depois, à faculdade de Jornalismo. Mas isso é assunto pra outro dia.
Agora, vamos ao personagem central dessa história. Um jovem que também tentava se tornar locutor naquela mesma rádio. Por questões éticas, não revelarei seu nome verdadeiro. Aqui, o chamarei de Teráns.
Lembro como se fosse hoje. Eu estava no estúdio com o meu amigo locutor, quando um jovem estacionou uma bicicleta na porta e entrou.
“Eu sou o Teráns”, disse ele, com uma timidez imensa.
Era alto, usava camisa e calça social, chinelo de dedo nos pés. Parecia evangélico — não sei se era. Nunca perguntei. Depois, meu amigo me contou que o Teráns tinha pedido uma chance na rádio. Disse que ele era estabanado, inseguro, mas que iríamos treiná-lo aos poucos.
Alguns dias depois, ele apareceu no estúdio novamente. Eu estava sozinho. Como sempre, demonstrava grande humildade. Conversei com ele, tentei acalmá-lo e expliquei como funcionava o programa:
“Brother, é com você agora. Depois do bloco comercial, entra essa música do Akon, e logo após você abre o microfone e fala.”
Ele estava nervoso demais, quase travando. Percebi que minha presença o deixava ainda mais intimidado. Então, falei:
“Irmãozão, vou sair um pouco. Agora que já expliquei, você pode fazer sozinho. Vou à casa de uns parentes e daqui a pouco volto.”
Saí, mas deixei o rádio sintonizado no celular. Fiquei ouvindo. E para minha surpresa, Teráns fez uma locução impecável. Com ritmo, criatividade, boa dicção, chamando os ouvintes… Nenhum buraco no ar. Uma locução perfeita.
Voltei ao estúdio e disse que ele tinha mandado muito bem. Sugeri que procurasse o diretor para conversar.
Mas dias depois, uma locutora me contou que um dos diretores queria demiti-lo. E que o Teráns dizia:
“Me deixe ficar. O Américo vai me ajudar. Ele vai me ajudar.”
Depois disso, nunca mais o vi. É provável que tenha sido demitido. Eu era apenas um jovem, um forasteiro ali, com pouco conhecimento. E hoje vejo: eu não observei à minha volta.
Por que estou te contando isso, leitor? Porque o Teráns tinha um sonho. Mas também tinha traumas. Era tímido, pobre, inseguro. E, talvez, tenha visto em mim um amigo. Alguém que estendesse a mão. E eu não percebi.
Talvez o sonho do Teráns tenha morrido. Talvez aquele talento tenha sido enterrado pela ignorância e má vontade de quem poderia ter oferecido uma oportunidade.
Se eu tivesse prestado mais atenção… talvez tivesse ajudado. Talvez tivesse intercedido por ele. Mas não observei.
Me perdoe, Teráns.
As pessoas têm sonhos, mas também carregam dores. Muitas lutam contra traumas profundos, e tudo o que precisam é de alguém que as veja, que as ouça, que lhes dê uma chance.
Por isso, termino essa primeira coluna com uma reflexão:
Observe à sua volta.
Sempre há alguém precisando de ajuda.
Sempre há um sonho prestes a morrer.
Que eu e você sejamos o amigo que estende a mão.
Que sejamos uma chama de esperança.
Pense nisso!
Um abraço, gente boa.
Até a próxima.