Vou começar com uma pergunta: por que estou falando sobre isso?
Muitos podem achar desnecessário, outros podem considerar uma bobagem. Mas a verdade é que sempre senti a necessidade de contar essa história. Não para alimentar o meu ego, e sim para orientar e, talvez, ajudar outras pessoas.
Certa vez, conversando com meu pai, ele me disse uma frase que jamais esquecerei: “Relembrar o passado é sofrer duas vezes.” Ele se referia às dores que já vivemos e que, ao lembrar delas, nos machucam novamente. Mas esta história eu conto não para sofrer, e sim para evitar que outros passem pelo que aconteceu comigo naquela fatídica manhã.
Vamos nessa, vou começar a história e você vem de carona comigo, meu leitor!
Certa vez, eu trabalhava em outra cidade, também na região Norte de Minas Gerais. Um dia, parei para refletir e tomei a infame decisão de que era hora de deixar aquele trabalho. Eu estava errado, mas só entendi isso muito tempo depois! A história que vou contar não tem a ver com o trabalho, mas está ligada de alguma forma. Sigamos em frente, pois este é o sentido da vida!
Desde menino, sempre fui do time que pensa antes de agir, sempre um sujeito muito calmo e que age com paciência, esperando que as coisas aconteçam da maneira e na hora certas. Você deve estar se perguntando o porquê desse título: “A reconquista da ordem”. Eu explico! Certas situações retiram sua vida do equilíbrio, do caminho, da trilha, do seu chamado ou de como você queira denominar e, só com esforço, dedicação e reflexão, é possível retomar o rumo.
Essas situações roubam você de si mesmo e podem jogá-lo no chão. Comigo, fui parar literalmente no chão! Penso que é preciso refletir antes de agir para não sofrer depois. Vamos à história…
Eu sempre fui adepto das viagens de motocicleta; fazia isso desde o longínquo ano de 2011. Como mencionei antes, trabalhava em outra cidade e, sempre que era possível, ia e voltava de moto. Aquela seria a última viagem a trabalho. Trabalhei naquela noite e, depois, fui para casa dormir. Mais ou menos às 3 da manhã, eu já estava pronto para pegar a estrada. Aqui cometi um sério erro: não descansei o suficiente. Por que tanta pressa? Para que vir tão cedo? Para que tamanha ansiedade?
Lembro que, na porta de casa, parei e fiz uma foto da moto. Parti em direção à travessia do rio São Francisco, queria pegar a balsa das 4 da manhã. Cheguei, parei e fiquei observando: o rio, o vento fresco no rosto e algumas pessoas que por ali estavam conversando. Quem seriam eles? Nunca vou saber! A balsa encostou. Eu subi , já estava experiente naquilo. Atravessamos e parti para a estrada, para o que desse e viesse. Como motociclista experiente, não tinha medo.
Era estranho. A noite me parecia mais escura do que o normal. Madrugada fria, longa noite escura. Parecia um sinal, como se algo me dissesse: “Volte, ainda não é a hora de partir!”. Prossegui mesmo assim. Poucos quilômetros depois, talvez uns dez, tomei um tombo. Levantei-me, levantei a moto. Nenhum prejuízo relevante: apenas uma dorzinha no pé direito e um espelho do retrovisor trincado. ERA UM AVISO! Mas não compreendi. Sei lá, não estava atento.
Continuei. Sempre tive muita garra quando o assunto era enfrentar a estrada sobre duas rodas. É algo fascinante e, ao mesmo tempo, agressivo. Viajar de moto é uma experiência que marca, e ainda é a paixão por um risco calculado. Eu sempre fui assim: pensava, calculava para que não desse errado e não colocasse a vida de ninguém em risco.
Lembro-me de ter lido, no livro “A Moto em 10 Lições”, a seguinte frase: “Rodar de moto é o gosto que consagra aqueles que não vivem escondidos com medo da vida.” E essa é uma frase que dialoga comigo. Nós não podemos ficar de braços cruzados esperando a vida passar; não podemos permitir que o medo de enfrentar as adversidades nos tire o prazer de viver e bloqueie os nossos sonhos. No entanto, é profundamente necessário refletir sobre cada passo que vamos dar. Do contrário, podemos errar e sofrer as consequências.
Depois do tombo, até pensei em parar na casa de um parente e esperar o dia clarear, descansar e depois prosseguir. Isso era o certo, mas achei que fosse muito incômodo bater na porta de alguém às quatro da manhã. Eu estava errado! Continuei.
Rodei bastante, mais de 100 quilômetros. Parei no restaurante em que costumava parar em todas as viagens.
Pedi o de sempre: uma coxinha e um copo de café. Isso foi por volta das 7 da manhã. Enviei uma mensagem para minha mãe: “Estou quase chegando!”. Terminei o lanche, paguei, subi na moto e voltei à estrada.
Certos momentos exigem decisões, e muitas delas vão definir nosso futuro. Na vida, é preciso achar um equilíbrio. Acho que essa é a palavra. Quando conseguimos agir de forma equilibrada, não tomamos decisões estúpidas e mantemos a vida em ordem. Eu estudo Filosofia, e Aristóteles, a quem considero o maior entre os filósofos , já dizia algo semelhante em sua obra “Ética a Nicômaco”. Dizia ele que precisamos achar o caminho do meio, o justo-meio. O filósofo estava certo.
Hoje, com mais maturidade e de cabeça fria, percebo que não encontrei o caminho do meio, não achei equilíbrio e permiti que minha vida virasse uma desordem, sem saber bem para onde estava seguindo. E paguei por isso!
Ano passado, escrevi um ensaio no qual refleti exatamente sobre isso: achar o equilíbrio, o caminho, em meio à longa jornada que é a vida. Denominei este ensaio de “A longa e escura noite” (BORGES, Américo, 2024). Tentei, humildemente, refletir sobre a ordem da vida e a importância de manter o equilíbrio. Isso tem tudo a ver com andar de moto: se pender para os lados, você vai para o chão! Ou você não acha, meu leitor?
Prossegui com a viagem pela rodovia. Estava feliz, cansado, mas feliz. Vi o sol brilhar e senti alegria! Nos últimos quilômetros, como de costume, me sentia em casa. Conheço cada palmo daquele chão. E foi aí que cometi mais um erro: perdi a humildade, confiei demais em mim.
Certa vez, assistindo a “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel”, o personagem Gandalf disse uma frase profundamente verdadeira: “O coração do homem é profundamente corruptível”. Isso está certo. Nós erramos quase o tempo todo, não temos certeza de quase nada e, por isso, não podemos perder a humildade e achar que somos grandes demais. Eu também falei algo sobre isso em “A longa e escura noite”. O erro me fez refletir e, hoje, sinto que sou alguém melhor.
Poucos quilômetros depois, caí feio. Não consegui desviar de um buraco na pista.
A moto deu um salto com o impacto, eu girei no ar e caí no acostamento. Minhas coisas ficaram espalhadas no chão. A moto sofreu danos significativos. Eu tive escoriações, mas não quebrei nada. O capacete Pro Tork modelo R8 (acho que é assim que chama) bloqueou o impacto. O estrago parou no capacete. Graças a Deus!
Logo atrás vinha uma caminhonete da Polícia Militar. Nela estavam um tenente e um sargento. Foi coincidência? NÃO! Foi, sim, uma providência de Deus.
Eles pararam para me ajudar. Conversaram comigo, mas eu estava confuso devido ao grande susto e à dor.
Perguntaram-me se eu conseguia ligar para alguém e pedir socorro. Respondi que sim. Tentei ligar para um amigo que sempre me ajuda em horas de dificuldade, mas simplesmente não conseguia. O raciocínio estava embaralhado e meu corpo doía. Então, eles recolheram minhas coisas e colocaram a moto na caçamba da caminhonete. Nunca vou esquecer a imagem do tenente no meio da pista recolhendo minhas coisas. Como me senti mal naquela hora!
Carrego na minha mente a imagem do azul do céu que vi no momento em que a moto deu um salto e girei no ar. Vi o céu por um segundo, o sol brilhava. Estava lindo!
Os policiais me levaram até a entrada do bairro onde moro. No caminho, eu os observava conversando e notei que o nome do sargento era Ramon. O do tenente, não consegui notar ou, se notei, não lembro mais. Quando desci da caminhonete, eles estacionaram a moto. O tenente me disse: “Estamos atrasados para uma operação. Se não fosse isso, te levaríamos até a porta da sua casa. Mas que Deus te abençoe e que você se recupere rápido.” Eu serei sempre grato!
Ali perto tinha um colega. Guardei a moto lá, toda quebrada, e ele me levou até em casa. Também sou muito grato por esse favor!
Os dias seguintes foram os piores que já experimentei: a dor das feridas, a frustração e um pouco de tristeza. Eu lembrava do padre com o qual tinha feito minha confissão mais recente e fiquei a pensar: qual seria a situação da minha alma se tivesse morrido no acidente? Sei que é uma reflexão profunda e que causa incômodo, mas ouso refletir sobre isso.
Entendi que Deus me deu uma segunda chance e que precisava tomar mais cuidado com a maneira como vivia. Percebi que não podemos apenas “empurrar a vida com a barriga”; é preciso ter cuidado para, mais tarde, não sofrer, como diz aquela música de uma banda que não gosto (risos).
A falta de planejamento, as decisões equivocadas, a teimosia, a falta de reflexão e a desobediência culminaram em um acidente que poderia ter ceifado minha vida. Você conseguiu compreender o que eu disse, meu leitor? Tomara que sim!
Se você leu até aqui, talvez esteja se perguntando: o que tudo isso quer dizer? Ou talvez ache isso uma grande bobagem. Mas o fato é que escrevo para que você possa refletir, cuidar melhor do dom mais valioso: a vida. Escrevo para que você, de alguma forma, possa pensar e viver melhor, mais feliz, quem sabe?
Obrigado por ler! Eu desejo a você uma VIDA LONGA, SADIA e FELIZ!
Às vezes, eu fico lembrando daqueles militares. Nunca mais os vi. Onde será que estão? Pareciam ser gente do bem! Talvez tenham esposas e filhos, talvez enfrentem dificuldades em suas profissões, talvez seus filhos queiram seguir os passos do pai e também ser militares, ou talvez queiram ser jornalistas como eu, algo que não recomendo (kkkkkk).
Essas são questões cujas respostas eu nunca vou saber!
Que todos vocês sejam felizes. Fiquem em paz!
Espero que tenham entendido a mensagem. Ah, não vá cair por aí, hein?
Um abraço, e desejo que você continue por aqui, de carona na garupa da minha moto, para a gente conversar, bater um papo, parar para tomar um café e refletir em versos sobre o mundo.
Até a próxima segunda-feira, gente boa!