A vida nos oferece, a todo momento, a oportunidade de escolher. Sempre precisamos decidir, e cada decisão, por mais simples que pareça, molda o nosso caminho ao longo da jornada. É fundamental escolher o certo, para não perder tempo, pois o tempo não volta. Então, meu amigo leitor, já sobe na garupa da moto filosófica e vem refletir comigo em Versos sobre o Mundo.
Hoje eu trago para você a história de um padre que é meu amigo. Não o vejo há muitos anos, mas tenho guardada esta entrevista que fiz com ele ainda nos tempos da faculdade de jornalismo. Aqui vou chamá-lo de “Joãozinho”, que não é o nome verdadeiro dele, não revelarei por razões de ética profissional. Leia e reflita!
Era uma manhã de terça-feira. Saí de casa por volta das 10 horas. A entrevista estava marcada para as 10h30. Cheguei ao portão e vi dois interfones; escolhi um e toquei. Alguém atendeu:
— Pois não?
Era uma voz feminina. Com toda certeza, era uma das freiras. Respondi:
— Bom dia. Preciso falar com o padre Joãozinho.
Eu estava nervoso, até meio trêmulo. Mesmo conhecendo aquele lugar , pois já estive ali outras vezes com um grupo de jovens católicos da paróquia, e também já havia passado por ali quando ainda era adolescente, não me dei conta de que havia chamado no interfone errado.
— O padre Joãozinho mora no portão ao lado.
— Ah, sim. Obrigado e desculpe.
Antes que eu chamasse o outro interfone, o portão ao lado já foi se abrindo. Provavelmente, a pessoa que conversou comigo havia avisado que eu estava ali.
— Olá! O que deseja? – disse uma senhora que caminhava em minha direção.
A casa era grande, com um quintal espaçoso e uma enorme árvore que proporcionava uma magnífica sombra. Assustei-me ao ver um cachorro grande correndo em minha direção.
— Não fique com medo. A Bela é mansa, só quer brincar.
Era realmente uma cadela mansa, só sabia brincar.
— Bom dia! O padre Joãozinho está em casa?
Antes que aquela senhora pudesse me responder, já vi o padre vindo.
— Olá, menino.
— Bom dia, padre.
Na porta da casa, em pé, estava um senhor, motorista do ônibus do centro pedagógico para crianças e adolescentes, administrado pelas freiras. Então percebi que a senhora que me recebera também era uma delas.
— Tudo bem com o senhor?
— Tudo bem.
Entramos na casa. Sentei-me no sofá de uma sala que, provavelmente, era o espaço de estudos do padre. Estava cheia de livros, havia uma mesa e um computador. Também um pequeno aparelho de som, ligado, tocava músicas italianas em volume baixo.
Enquanto o padre saiu para lavar as mãos, liguei o meu gravador e o coloquei sobre a mesa. Nesse momento, a cadela Bela entrou na sala, pensei que fosse me morder, mas novamente só queria brincar. O padre voltou.
— Olha ela aí! Sai, Bela. Já acabei de lavar as mãos, não vou brincar com você. Vou ter que tirar ela daqui, senão não te deixa em paz. Vamos, Bela!
Depois de levá-la para fora, voltou e começamos a entrevista.
— Acredita que cuidar de um cachorro é tão difícil quanto cuidar de uma criança? A Bela é muito danada. Então, vamos lá!
— Então, padre…
— Espere um pouco. O seu nome é Ricardo?
— Não, padre. O meu nome é Américo.
Ele estava me confundindo com um dos coordenadores de juventude da paróquia.
— Ah, sim, você é o Américo. Então vamos lá, pode começar a entrevista.
O padre Joãozinho nasceu na Itália, na cidade de Seriate. Ele é de uma família de apenas dois irmãos, sendo o mais velho. Quando criança, morava com a avó e estudava no colégio de Seriate. Os pais trabalhavam muito, daí a necessidade de viver com a avó.
As aulas começavam às 8h30 da manhã, mas antes ele frequentava a missa todos os dias. Não dava tempo de assistir à missa inteira, só ficava até o momento da Comunhão. Depois pegava sua bicicleta e corria para a escola.
— Mas como surgiu essa ligação com a Igreja Católica?
— Meus pais eram católicos.
Desde criança ele já sentia a vocação para o sacerdócio. Brincava de celebrar missa em casa: pegava copos com água e pedaços de pão, colocava sobre a mesa e acendia velas. Assim, o menino Joãozinho já revelava sua vocação de padre.
Ele participava ativamente da paróquia de Seriate: foi coroinha, chefe dos coroinhas, catequista e ainda ajudava a cuidar do barzinho da paróquia, onde eram distribuídos doces, balas, pipocas e refrigerantes para as crianças.
Na Itália, Joãozinho não se limitava apenas às atividades da Igreja. Tinha muitos amigos, e juntos saíam de bicicleta, passavam pelos campos e plantações, brincavam e colhiam milho. Uma história interessante dessa fase foi a da pequena cabana de madeira próxima às plantações. Ali Joãozinho costumava brincar, mas como na Itália faz muito frio, resolveu acender um fogo perto da cabana. O fogo se espalhou e queimou tudo. Foi um grande susto e, como não havia água para apagar, ele teve que assistir à cabana inteira sendo destruída pelas chamas.
Com 19 anos, recebeu um convite do padre da paróquia para participar de um estágio vocacional. Ele aceitou. O estágio foi numa tarde de sábado, em novembro de 1985. Lá conheceu outro padre que o acompanhou. Seis meses depois, esse mesmo padre o convidou para entrar no seminário. No dia 15 de setembro de 1986, o jovem ingressou.
Ele sabia que precisaria de uma mudança radical em sua vida. Não teria mais tanto tempo para estar com seus amigos e sua família. Teria que deixar sua cidade natal. Sentia medo de o seminário ser um lugar fechado e solitário, mas logo descobriu que era o contrário: havia muitos jovens, atividades, escola, catequese e um ambiente acolhedor. Podia visitar sua casa a cada 15 dias e tinha férias no Natal, na Páscoa e no verão (julho, agosto e setembro). Gostou e iniciou sua caminhada de seminarista.
— Padre, o que exatamente o seminarista estuda?
— Então, depende do caso. Eu, por exemplo, quando entrei só tinha o ensino fundamental. Tive que recuperar. Também estudei línguas como inglês, francês, além do italiano.
— O senhor fala francês e inglês? – perguntei admirado.
— Sim. Além do italiano e do português.
Depois de algum tempo de seminário, os jovens recebem uma certidão que os autoriza a estudar teologia na faculdade. Estudam Filosofia e Teologia por vários anos. No caso do padre Joãozinho, ele ainda estudou mais quatro anos na Itália, fez um ano de experiência no Brasil e mais um ano de diaconato na Itália, ao todo, 12 anos de formação.
— Então, o jovem sai do seminário e vai estudar na faculdade?
— Exatamente. Foi assim comigo na Itália.
Em 2000, foi ordenado. Após se tornar padre, seus superiores ofereceram a oportunidade de escolher onde trabalhar. Ele escolheu o Brasil, pois havia gostado muito da experiência anterior. Mas, como não havia vagas disponíveis no momento, precisou esperar cinco anos. Nesse período trabalhou na Itália. Em 2005 surgiu a oportunidade e ele foi enviado ao Brasil. Atuou por cinco anos em Peabiru (PR) e mais dois anos em Assaí (PR). Só veio para Montes Claros quando outro padre, então vigário por aqui, foi nomeado pároco em Curitiba. Seus superiores indicaram Joãozinho para substituí-lo em Minas.
As paróquias têm, normalmente, dois ou mais padres: um pároco e seus vigários.
— Olha, já faz 15 anos que o atual pároco está aqui. Provavelmente ele vai embora no fim do ano.
— Como? Ele vai embora? – perguntei admirado.
Na verdade eu já sabia disso, mas, como bom jornalista, perguntei para confirmar.
— Sim, ele vai embora. Mas é porque já faz muito tempo que está aqui.
Nesse momento, o padre se levantou e desligou o aparelho de som. Mesmo com o volume baixo, já atrapalhava. Lá fora, um barulho insistente , não sei se de cortador de grama ou serra elétrica, também perturbava a nossa conversa.
— Padre, qual é a hierarquia da Igreja até chegar ao Papa?
— Então, primeiro o Batismo, depois a Crisma, a Comunhão, o Diaconato, a Ordem Sacerdotal, a consagração episcopal (quando se torna bispo) e, por último, Cardeal e Papa.
Na verdade, Cardeal é apenas um título, um reconhecimento concedido a um Bispo, assim como padres podem receber a nomeação de Monsenhor. As funções permanecem as mesmas. Mas Bispos que não são cardeais não podem participar do conclave nem se tornar Papa. Antigamente era diferente: qualquer Bispo poderia ser eleito Papa, sem necessariamente ser Cardeal. Os Cardeais reunidos no conclave decidiam qual bispo do mundo seria convidado.
— Padre, o senhor já conheceu o Papa Francisco ou Bento XVI?
— O Francisco não. Mas o Bento eu vi e até o cumprimentei, no mesmo dia em que ele foi para o conclave e de lá saiu como Papa. Também celebrei com ele depois, na Jornada Mundial da Juventude, na Alemanha.
— Nesse último conclave, a mídia deu muito destaque. O senhor acha que a imprensa persegue a Igreja?
— Não sei se persegue. Mas é claro que a Igreja chama muita atenção da mídia, tanto a Católica quanto as protestantes.
— Mas por que tanto destaque ao conclave?
— Porque havia muitas vozes dizendo que talvez o cardeal de São Paulo fosse o novo Papa. Talvez por isso destacaram tanto.
O padre já parecia cansado e sonolento. Procurei me apressar.
— Tudo certo então, padre. Diga, o que o senhor está achando dessa experiência aqui em Montes Claros?
— Com certeza é uma experiência nova. Nunca trabalhei em Minas Gerais, só no Paraná. Mas aqui é muito mais gratificante.
— Por quê, padre?
— Porque aqui há uma movimentação de jovens muito grande, coisa que lá no Paraná não havia. Aqui eu trabalho pouco e consigo grandes resultados, porque vocês me ajudam. São autônomos e já realizam um ótimo trabalho sem precisar que o padre insista.
— O senhor acha que falta uma pastoral de comunicação aqui?
Perguntei isso para ver a reação dele. Sempre pensei em iniciar o trabalho de pastoral de comunicação da paróquia.
— Falta, sim. A pastoral de comunicação é muito importante. Imagine que bom seria se tivéssemos algo como uma rádio. É interessante montar alguma coisa, embora seja caro.
— Mas agora com o senhor aqui, quem sabe conseguimos montar.
— Sim. Com muito esforço, quem sabe?
— Está bem. Acho que é só isso, padre.
— Tá legal.
— Só vou desligar aqui o meu gravador.
— Aaaaah! Você ligou o gravador… mas que esperto, hein? (risos).
Depois o padre ainda conversou um pouco. Aconselhou-me a estudar e aproveitar bem o tempo que restava na faculdade de jornalismo. Perguntou sobre minha família. Agradeci pela entrevista.
— Até logo, padre. Fique com Deus.
— Amém! Tome muito cuidado, andar de moto é perigoso. Vai com Deus.
— Pode deixar. Vou tomar cuidado. Amém!
Então, meu caro leitor, que essa história real te ajude a refletir sobre o seu próprio caminho. Todos temos uma missão, um chamado, um rumo. Qual é o seu? Pense sobre isso e, se precisar, você sabe: é só subir na garupa da moto filosófica e refletir comigo. Quem sabe, em uma dessas nossas conversas, eu e você encontramos o melhor caminho.
Até a próxima, gente boa!